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espigas 2k3

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Uma análise crítica

Ainda estou a ler e reler (para crer) a crónica de hoje do Pedro Rolo Duarte no suplemento DNa, a propósito dos blogs. O José Mário tinha colocado um post a avisar a navegação para um "manifesto anti-blog". Mas o que li não é um texto que se posicione contra a sua existência. É uma "espinha", como diz PRD, pelo facto de pessoas com acesso a outros meios de comunicação social tradicionais, e logo com um maior peso na opinião pública, evidenciarem ainda assim a necessidade de "blogar". Não sou jornalista para poder argumentar esta posição. Não sei a que tipo de limitações editoriais poderão estar eventualmente sujeitas pessoas como o Pedro Mexia ou o José Mário. Por ironia (ou talvez não), esta edição do DNa mostra PM em vários apontamentos de contra-crítica destilada, à boa maneira do que melhor se vê nos blogs, e o José Mário como referência ao novo filme do falecido João César Monteiro, apontando o desertor como um dos personagens da história.

No entanto, discordo da interpretação que PRD dá a este fenómeno entre os "colunáveis". Descreve o processo como "um Portugal Fashion da opinião", uma feira de vaidades e dos egos dos seus intervenientes.

No programa radiofónico da Antena 1, "Escrita em Dia", moderado pelo Francisco José Viegas, todos estes “bloguistas” (é o meu termo preferido) demonstraram já ter uma opinião madura e bem formada do fenômeno (entre os mais conhecidos e não só).

Um blog é um exercício de desambiguação (salvo raras exceções). Um blog é um sítio onde podemos escrever, editar, linkar, ou colocar imagens, sobre tudo aquilo que gostamos de fazer. Isto implica que pode ser um instrumento complementar às funções que exercemos no nosso quotidiano, ou pura e simplesmente um lançamento de ideias, pensamentos e críticas sobre os mais variados temas, que em outro sítio estaria limitado a ser lido ou ouvido pelo grupo de pessoas mais chegadas. São as tais "conversas de café ou da treta". PRD diz que "uma das maiores virtudes da imprensa, e dos media em geral, é o facto de serem finitos", obrigando "quem escreve, quem edita, a escolher". Pois é precisamente aí que reside uma das particularidades mais positivas dos blogs, ou seja, o facto de serem infinitos. De neles a única limitação ser a imaginação do (s) autor (es). Sendo assim, e já que tanto o Pedro como o José Mário têm as suas limitações de espaço e de temas, não é legítimo que lhes seja possível mostrar tudo aquilo para lá do que "destilam" nos media tradicionais? Não acredito que o DNa estivesse interessado num texto do Pedro Mexia como este:

DIRTY MEXIA: Perguntam-me frequentemente porque escrevo tanto sobre assuntos sexuais. Deixem-me responder assim: segundo Wole Soyinka, o grande tema da literatura etíope é a comida.

Ou noutro do José Mário como este:

MICROCRÓNICA DA CANÍCULA. O interior do Clio transformado em forno de cozer tijolos; 40º à sombra; ar tão quente que quase queima os pulmões; litros de água fresca bebidos e perdidos, instantaneamente, pela transpiração; uma necessidade imperiosa, muito física, de tomar pelo menos cinco duches de manhã e cinco duches à tarde (o que é, claro está, impossível). Sim, meus amigos, há dias em que me deparo com as mais terríveis dúvidas. Como hoje: serei de fato um animal homeotérmico?

No entanto, na blogosfera há pessoas que os leem, os comentam, e até os atacam, se necessário. As maiores trivialidades do dia-a-dia podem ser interessantes num blog, mas num suplemento de um jornal já estariam ultrapassadas pelo tempo.

O imediatismo dos blogs é mais intenso e violento que o de um jornal, e às vezes até mesmo da televisão ou da rádio (veja-se todo o caso do encerramento da Coluna Infame, ou as reações instantâneas ao caso Felgueiras após a entrevista na RTP). Os ânimos aqui podem eventualmente exaltar-se para lá do bom senso, mas isso faz parte da natureza humana. Todos temos um lado negativo, e que por vezes se revela aqui.

Imagine-se que Pessoa ou Borges tivessem acesso a um blog só deles. Imagine-se a quantidade de frases que agora lemos em biografias e que assim poderiam ser interpretadas à nossa maneira, naquele momento. Imagine-se o poder de avaliar os pensamentos dos outros, e responder de imediato (via e-mail ou pelos comentários, como eu prefiro).

Por tudo isto creio que é algo desajustada e injusta a crítica de PRD a esses cronistas/críticos/poetas/e sei lá mais o quê.

Por fim gostaria de agradecer ao Pedro Rolo Duarte o facto de me colocar ao lado de uma figura tão ilustre como o Ricardo de Araújo Pereira (terá sido gralha?), na secção de "gente anónima e cheia de raiva para destilar". De minha parte ainda compreendo. Ultimamente estive envolvido numa polémica com o Mar Português, e trocaram-se algumas palavras mais azedas. Mas o RAP? De anônimo creio que não tem nada.

Se eu fosse rico...

Ah! Se eu fosse rico! Comprava uma sala de cinema só para mim, criava uma distribuidora para poder trazer para o nosso país algumas pérolas que ficam no limbo internacional, enchia a minha (nova) casa com DVD's até ao teto, provenientes de todo o mundo...e depois acordei.

Ora, esta deambulação mental passou-se no condicional, como nos quer fazer crer o título do filme "Ah! Si j'étais riche". Mas a verdade é que durante a maior parte da história isso é já um facto consumado. O ator Jean-Pierre Darroussin interpreta Aldo, um vendedor/distribuidor para uma companhia de produtos capilares, que se vê de repente rico. Podre de rico. Aldo descobre que é o único totalista de um prémio de dez milhões de euros (minha nossa Senhora!). Mas as coisas em casa já não estavam nada bem. Depois de um dia desastroso, em que descobre que a mulher (Valeria Bruni Tedeschi) o engana com o seu próprio patrão (Henri Guybet), antigo colega de escola na infância, e depois de um acidente com o seu recém comprado em volume em segunda mão, Aldo decide ocultar o facto para poder ficar com o prémio todo, já que está casado com comunhão de bens adquiridos.

O resto do filme é uma miríade de gags que poderiam entrar muito facilmente em qualquer comédia romântica britânica ou americana. Este filme sofre aliás desse síndroma. Tenta a todo o custo seguir os "ensinamentos" ingleses, perdendo-se por vezes em algumas cenas desnecessárias e algo desenquadradas com outro nível de humor menos refinado.

"Ah! Si j'étais riche" é um filme de entretenimento puro, a que não seria de desdenhar a possibilidade de um remake americano. O filme foi realizado e escrito a meias entre Gérard Bitton e Michel Munz, uma dupla que já se encontrara por duas outras vezes nos sucessos de bilheteira (em França) de "La Vérité si je mens!" e respectiva sequela.

Segundo estes argumentistas, agora definitivamente convertidos à realização, a história pretende mostrar que mesmo depois de ganhar um prémio tão grande como o Loto francês, a felicidade não é um dado adquirido. Pode não ser, mas que ajuda, lá isso ajuda.

Palavras difíceis

Ontem sentei-me no sofá e pela primeira vez vi uma emissão do concurso "Passo a Palavra", apresentado pelo Nicolau Breyner na RTP1, a seguir ao "Contra-Informação". Uma das partes a que os concorrentes são submetidos corresponde a identificar os significados de uma lista de "palavras difíceis". Na sua maioria, são vocábulos que caíram em desuso, ou são apenas recordadas em alguns textos e obras dos nossos mais proeminentes intelectuais.

Na edição que vi estava lá a palavra vetustez, sinónimo de antiguidade. Como homem das engenharias, não sou muito dado a estes conhecimentos, e admito mesmo que esta palavra, por exemplo, aprendi ao ler já não sei qual dos meus blogs da praxe. Veio-me imediatamente à cabeça uma pergunta: E se naqueles distintos convidados que o programa convida todos os dias para ajudar os concorrentes figurassem nomes como os do Pedro Mexia ou do José Mário? Quase que aposto que limpavam a prova enquanto o diabo esfrega um olho.

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